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— Mais rica do que vinte ou cinqüenta Iedos. Como digo isso em japonês? Hiraga explicou, os olhos perspicazes registrando tudo... não acreditando naquela história sobre Londres, nem na maior parte do que Tyrer lhe dizia, convencido de que eram apenas mentiras para confundi-lo. Passavam agora pelos diversos bangalôs que serviam como legações, esgueirando-se entre o lixo, amontoado por toda parte.



— Por que bandeiras diferentes, por favor?



Tyrer queria praticar o japonês, mas a cada vez que começava, Hiraga respondia em inglês, e no mesmo instante fazia outra pergunta. Mesmo assim, ele explicou, apontando:



— São as legações; aquela é a russa, a americana, a francesa... e ali a prussiana. A Prússia é uma importante nação do continente. Se eu quisesse dizer...



— Ah, sinto muito, ter um mapa do seu mundo, por favor?



— Tenho, sim, e lhe mostrarei com o maior prazer.



Um destacamento de soldados se aproximou e passou, sem lhes dispensar a menor atenção.



— Esses homens da Prússia — disse Hiraga, pronunciando o nome com o maior cuidado — também fazem guerra contra franceses?



— Às vezes. Sem dúvida são belicosos, sempre guerreando contra alguém. Têm um novo rei e seu maior defensor é um príncipe poderoso chamado Bismarck, que está tentando juntar todos os que falam alemão numa grande nação, e...



— Por favor, sinto muito, Taira-san, não tão depressa, sim?



— Ah gomen nasai.



Tyrer repetiu o que dissera, mais devagar, respondeu a mais perguntas, nunca deixando de se espantar com sua quantidade e extensão, admirado com a mente inquisitiva de seu protegido. Ele riu de novo.





— Devemos chegar a um acordo: uma hora sobre o meu mundo, em inglês, a hora sobre o seu, em inglês, e depois uma hora de conversa em japonês. Hai?





Hai. Domo.





Quatro cavaleiros a caminho da pista de corridas alcançaram-nos, eles cumprimentaram Tyrer, olharam para Hiraga com a maior curiosidade. Na extremide da High Street, junto à barreira, filas de cules, com o carregamento da tarde. Mercadorias e alimentos, começavam a passar pela alfândega, sob os olhos vigilantes dos guardas samurais.



— É melhor nos apressarmos, para não nos misturarmos com esse bando disse Tyrer.



Ele atravessou a rua, esgueirando-se entre o estrume de cavalo, parou abruptamente e acenou, ao passarem pela legação francesa. Angelique estava à sua janela, no térreo, as cortinas abertas. Ela sorriu, acenou em resposta. Hiraga fingiu não ter notado o escrutínio a que ela o submeteu.



— Essa é a dama com quem o Sr. Struan vai casar — comentou Tyrer recomeçando a andar. — Muito bonita, não é?





Hai. Aquela sua casa, sim?



— Sim.



— Boa noite, Sr. McFay. Está tudo trancado.



— Boa noite, Vargas.



McFay reprimiu um bocejo e continuou a escrever em seu diário, a última tarefa do dia. Sua escrivaninha se encontrava limpa, a não ser pelos jornais de duas semanas ainda por ler. A bandeja de entrada estava vazia e a de saída continha as respostas para a maior parte da correspondência de hoje, assim como os pedidos, notas de transporte já assinadas, prontas para serem executadas ao amanhecer, quando os negócios começavam.



Vargas coçou distraído uma picada de pulga, uma constante na Ásia, e guardou a chave da casa-forte na escrivaninha.



— Quer que eu traga mais luz?



— Não, obrigado. Já estou quase acabando. Vejo-o amanhã.





— Os Choshus devem chegar amanhã, para tratar das armas.



— Eu não havia esquecido. Boa noite.



Agora que se encontrava sozinho naquela parte do andar térreo, McFay sentiu-se mais feliz, sempre satisfeito por não ter qualquer companhia, sempre seguro dentro de si mesmo. Exceto por Vargas, todos os escriturários, cambistas e demais empregados usavam outra escada, e tinham suas salas nos fundos do prédio. A porta de comunicação entre as duas partes era trancada à noite. Só An Tok e os criados pessoais permaneciam na parte dianteira, que continha os escritórios, a casa-forte, onde ficavam todas as armas, livros de contabilidade e cofres com dólares de prata mexicanos, taéis de ouro e moedas japonesas, e os aposentos, no andar por cima.



A correspondência diária era sempre intensa e ocupava McFay até tarde da noite, aquela em particular mais do que as outras, porque recebera de Nettlesmith o último capítulo de Grandes Esperanças, subira correndo e partilhara sua hora miúda com Malcolm Struan, desfrutando cada página, antes de descer para trabalhar, na maior satisfação, porque tudo acabara bem para Pip e a moça, e agora uma nova epopéia de Dickens seria anunciada na edição do mês seguinte. Pois o relógio de pé tiquetaqueava suavemente. McFay escreveu depressa, com sua letra precisa:



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