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— Apenas escute, por favor. — Angelique deslocou sua cadeira para mais perto. — Fui estuprada em Kanagawa...



Ele a fitou, fixamente, atordoado, enquanto Angelique relatava o que pensava ter lhe acontecido, o que decidira fazer, como ocultara o horror desde então.



— Por Deus, minha pobre Angelique, deve ter sido terrível para você! — foi tudo o que André conseguiu murmurar, num choque profundo.



Ao mesmo tempo, outra peça do quebra-cabeça ajustou-se no lugar. Sir William, Seratard e Struan haviam decidido limitar a notícia sobre a operação do Dr. Hoag em Kanagawa ao mínimo de pessoas possível, ocultando-a em particular de Angelique, os dois médicos aconselhando que era o mais sensato.





— Por que agitá-la desnecessariamente? Ela já se sente bastante transtornada com o atentado na Tokaidô.



Não havia ainda razão para contar a ela, pensou André, inquieto, abalado pela ironia.





Ele pegou a mão de Angelique, acariciou-a, forçando-se a reprimir suas próprias preocupações e concentrando-se nela. Vendo-a ali, sentada à sua frente, na sala que ocupava na legação, tão serena e recatada, a imagem da inocência, apenas umas poucas horas depois de ter sido a belle no melhor baile que Iocoama já testemunhara, proporcionava à sua história um ar total de irrealidade.



— Isso realmente aconteceu, Angelique?



Ela ergueu a mão, como se estivesse fazendo um juramento.



— Juro por Deus.



Angelique cruzou as mãos sobre o colo. Usava um vestido amarelo claro, uma pequena touca laranja e um guarda-chuva. Desconcertado, ele sacudiu a cabeça.



— Parece impossível.



Ao longo de seus anos como adulto, André Poncin tivera alguma participação em muitas dessas tragédias de homem-mulher: fora incluído em algumas por seus superiores, deparara por acaso com umas poucas, precipitara muitas e usara a maioria, se não todas, para a melhoria de sua causa... pela França, a revolução, liberdade, fraternidade, igualdade ou pelo imperador Luís Napoleão ou por qualquer pessoa ou coisa que estivesse em voga no momento... e também em proveito pessoal, acima de tudo.



Por que não? — pensava ele. O que a França tem feito por mim, o que algum dia fará por mim? Nada. Mas esta Angelique, com toda certeza, ou vai desmoronar a qualquer momento — sua serenidade é irreal — ou é como algumas mulheres que já conheci, que nasceram más e distorcem a verdade de maneira brilhante, para seus próprios propósitos, ou como alguém que foi levada à beira do abismo pelo terror, e se tornou uma mulher calculista, de sangue-frio, além dos seus anos.



— Como?



— Preciso remover o problema, André.



— Fazer um aborto? Mas você é católica!



— E você também. É uma questão entre Deus e eu.



— O que me diz da confissão? Tem de se confessar. Neste domingo, quando for à missa...



— É uma questão minha com o padre e depois com Deus. Mas o problema deve ser removido primeiro.



— É contra a lei de Deus e a lei do homem.



— E tem sido feito ao longo dos séculos, desde antes do dilúvio. — Um pouco nervosismo se insinuou na voz de Angelique. — Você confessa tudo? Adultério ambém é contra a “lei de Deus”, não é mesmo? E matar é contra todas as leis, não é?



— Quem disse quejá matei alguém?



— Ninguém, todavia é mais do que provável que já o tenha feito ou, pelo menos, causou mortes. Estes são tempos violentos. Preciso de sua ajuda, André.



— Está se arriscando à danação eterna.



— É verdade, angustiei-me por isso, com lagos de lágrimas.



Pensou Angelique, sombria, mas mantendo os olhos inocentes, odiando-o, detestando ter de confia nele.



Acordara cedo naquela manhã, continuara deitada, pensando, avaliando seu plano, de repente chegando à conclusão de que deveria odiar todos os homens Os homens causam todos os nossos problemas, pais, maridos, irmãos, filhos e padres... os padres são os piores de todos os homens, muitos são notórios fornicadores, insidiosos, mentirosos, que usam a Igreja para seus sórdidos propósitos pessoais, embora seja verdade que uns poucos são santos. Os padres e os outros homens que controlam nosso mundo e o arruinam para as mulheres. Odeio a todos... à exceção de Malcolm. Não o odeio, ainda não. Não sei se o amo de verdade. Não sei o que é o amor, mas gosto dele mais do que de qualquer outro homem que já conheci, e o compreendo.



Quanto ao resto, graças a Deus que meus olhos estão finalmente abertos! Ela fitava André com uma expressão confiante e suplicante. É uma desgraça que eu tenha de pôr minha vida em suas mãos, mas graças a Deus posso agora vê-lo como de fato é. Malcolm e Jamie têm razão, tudo o que você quer é dominar a Struan ou causar sua queda. É uma desgraça que eu tenha de confiar em qualquer homem. Se ao menos estivesse em Paris ou mesmo em Hong Kong, contaria com dezenas de mulheres a quem poderia discretamente pedir a ajuda necessária, mas aqui não há nenhuma. Aquelas duas megeras? Impossível! É evidente que me odeiam, são inimigas.



Angelique permitiu que umas poucas lágrimas aparecessem.



— Por favor, ajude-me. Ele suspirou.



— Falarei com Babcott esta ma...



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