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— Ah, sim, esqueci de mencionar isso. Entreguei a carta no primeiro dia, antes de sair, como havíamos combinado, ressaltando de novo que era tudo idéia sua, que o meu acordo era com Malcolm, o tai-pan, e ele estava morto, eu considerara o negócio encerrado, pretendia voltar a Xangai, a fim de esperar por um novo tai-pan. Mas você me procurara, suplicara para que eu a procurasse, alegando que devia isso a meu amigo Malcolm, que ele mencionara minha proposta a você em segredo... sem dar os detalhes... e você tinha certeza de que seria o desejo dele que as informações fossem transmitidas à sua mãe, o mais depressa possível, e que isso deveria ser feito com urgência. A princípio, eu não queria, mas você insistira, e acabara me persuadindo. Por isso, ali estava eu, por sua causa, e você também me pedira para trazer uma carta. E entreguei-a.



— Ela leu na sua frente?



— Não. Isso foi no primeiro dia. No dia seguinte, em nosso encontro ao amanhecer, depois que lhe passei parte das informações, ela fez muitas perguntas, inteligentes, e me disse para voltar depois do pôr-do-sol, outra vez pela porta lateral. Assim fiz. Ela foi logo me dizendo que o dossiê era incompleto. Eu lhe disse que sim, sem dúvida, não havia sentido em mostrar tudo, enquanto eu não soubesse até que ponto ela estava empenhada... se tinha mesmo interesse, como Malcolm, em arruinar os Brocks? Ela respondeu que sim, e perguntou por que eu estava atrás deles, qual era o meu interesse.



Gornt fez outra pausa.



— E eu contei, sem rodeios. Toda a história de Morgan, a verdade. Era Morgan quem eu queria arruinar, se o pai caísse também, tudo bem por mim. Não mencionei que isso a tornava minha tia, nem uma única vez, em qualquer dos encontros, e ela também não disse nada a respeito. Nunca. Também não mencionou a carta que você mandou. Nem uma única vez. Ela se limitou a fazer perguntas. Depois das revelações sobre Morgan, esperava que ela dissesse alguma coisa, como lamentava a situação, ou que era típico de Morgan... afinal, ele é seu irmão. Mas nada. Ela não disse nenhuma palavra, pediu detalhes sobre o meu acordo com Malcolm, e lhe entreguei o contrato. — Ele terminou o drinque. — Seu contrato.



— Seu contrato — disse Angelique, nervosa. — Deve odiá-la muito, Edward.



— Está enganada, não a odeio. Acho que compreendia que ela vivia com os nervos à flor da pele. A morte de Malcolm a abalou, por mais que tentasse esconder e se colocasse acima. Tenho certeza. Malcolm era o futuro da Casa Nobre, agora ela enfrenta o caos... seu único raio de esperança era eu e meu plano, que mal chega a ser legal, diga-se de passagem, até mesmo em Hong Kong, onde as leis são flexíveis como em nenhum outro lugar. Posso?



Gornt levantou seu copo.



— Claro — murmurou Angelique, especulando sobre ele.



— Ela leu o contrato com todo cuidado, depois se levantou, contemplou a enseada de Hong Kong lá embaixo, parecendo frágil por um lado, mas feita de aço por outro. “Quando terei o resto dos documentos?”, perguntou ela. Eu disse que agora, se concordasse com o acordo. “Negócio fechado”, declarou ela. Tornou a sentar, assinou o contrato, aplicou o sinete, na presença da secretária, como testemunha, e depois mandou que o guardasse no cofre, e se retirasse. Ela...



— Ela nunca mencionou minha assinatura como testemunha.



— Não, embora eu tenha certeza de que foi a primeira coisa que notou, como você previu. Continuando... fiquei com ela por umas quatro horas, orientando-a pelo labirinto de documentos e cópias de documentos, não que Tess precisasse de muita orientação. Depois, ela juntou tudo numa pilha impecável, e me interrogou sobre o atentado na Tokaidô, Malcolm, você, McFay, Tyrer, Sir William, Norbert, o que Morgan e Tyler haviam me dito em Xangai, minhas opiniões a seu respeito, sobre Malcolm, ele se empenhou em conquistá-la, ou foi o contrário, não fazendo qualquer comentário, perguntas e mais perguntas... esquivando-se às minhas... sua mente tão aguçada quanto a espada de um samurai. Mas juro por Deus, Angelique, que cada vez que aflorava o nome de Morgan ou do Velho Brock, cada vez que eu mencionava outra manobra que os documentos permitiam, ou sugeria outra farpa para abalar o império deles, Tess quase salivava.



Angelique estremeceu.



— Acha que há alguma possibilidade de paz comigo?



— Creio que sim, mas deixe-me terminar, em seqüência. Ela perguntou de novo se o acordo que Malcolm assinara ainda era uma recompensa aceitável e respondi que sim. E ela disse: “Amanhã o substituirei por um documento mais legal, assinado e sacramentado, como o outro. Agora, vamos à última questão Sr. Gornt. O que devo dar “àquela mulher?” Eu tinha dito a ela, Angelique, que você não me pedira nada, só queria que os desejos e esperanças de seu marido fossem apresentados a ela, e que, se fossem úteis... afirmei a ela que você nada sabia do conteúdo... essa seria toda a sua recompensa.



— Usou essa palavra, “marido”? E ela deixou passar?



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