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— Eles nunca ousariam... não isso!



— O xogunato é o xogunato, todo-poderoso, neste momento. Por que não ia considerar a remoção de um obstáculo... qualquer obstáculo? Afinal, ele não chegou a considerar, seu wa destruído, em abdicar a favor do filho, o príncipe Sachi?



— Rumores! — protestara ela. — Não podem ser verdadeiros!



— Creio que eram, princesa imperial — dissera o chanceler, muito sério. — Mas agora, ELE pede, por favor, ajude-o.



Desesperada, Yazu compreendera que, independente do que dissesse, tudo sempre voltaria ao “pedido”. Não havia escapatória. Ao final, teria de se submeter ou se tornar uma monja. Ainda abrira a boca para a recusa final, só que jamais ocorrera. Alguma coisa parecera aflorar em sua mente, e começara a pensar, pela primeira vez, por um processo diferente, não mais uma criança, agora uma adulta, e fora com esse espírito que dera sua resposta:



— Concordarei, desde que possa continuar a viver em Iedo, no palácio imperial...



Aquela conversa levara a esta noite de silêncio, rompido apenas por seus soluços.



Yazu sentou na cama, limpou as lágrimas. Mentirosos, pensou ela, amargurada, fizeram-me promessas, mas até nisso trapacearam. Um ligeiro som de Nobusada, que se virou, dormindo. À luz do lampião aceso, sem o que ele não podia dormir, parecia mais infantil do que nunca, mais como um irmão caçula do que como um marido... jovem, muito jovem. Gentil, atencioso, sempre a escutando, aceitando seu conselho, sem guardar segredos, tudo o que Wakura previra. Mas insatisfatório.



Meu querido Sugawara, agora impossível... nesta vida.



Um tremor a percorreu. A janela estava aberta. Yazu debruçou-se para fora, mal notando a mansão fumegando lá embaixo, com outros incêndios surgindo aqui e ali, pela cidade, o luar no mar além... cheiro de queimado no vento, o amanhecer clareando o horizonte a leste.



Sua determinação secreta não mudara desde aquele dia da conversa com Wakura: passar esta vida arruinando o xogunato que arruinara sua vida, despojá-lo do poder por quaisquer meios e devolver esse poder ao filho do céu.



Vou destruí-los como eles me destruíram, pensou ela, muito sensata agora para sequer sussurrar esse objetivo para um poço. Supliquei para não vir para cá, supliquei para não casar com este menino. Embora goste dele, detesto este lugar horrível, detesto estas pessoas horríveis.



Quero voltar para casa! E voltarei. Só isso fará com que a vida se torne suportável. Realizaremos a visita, não importa o que Yoshi faça ou diga, não importa o que qualquer outro faça ou diga. Voltaremos para casa... e ficaremos lá!
















LIVRO DOIS



18







Segunda-feira, 13 de outubro:









Ao sol brilhante do meio-dia, dez dias depois, Phillip Tyrer sentava a uma escrivaninha na varanda da legação em Iedo, praticando satisfeito a caligrafia japonesa, com pincel, tinta e água, cercado por dezenas de folhas preenchidas e descartadas de papel-de-arroz, espantosamente baratas aqui, em comparação ao seu preço na Inglaterra. Sir William o enviara a Iedo para preparar a primeira reunião com os anciãos.





O pincel parou de repente. O capitão Settry Pallidar e dez dragões, igualmente imaculados, subiam a colina a cavalo. Ao entrarem na praça, os samurais ali, em quantidade muito maior do que antes, se afastaram para dar passagem. Reverências ligeiras e rígidas, respondidas com uma continência rápida, sem dúvida um protocolo recém-instituído. Sentinelas de casaco vermelho, em quantidade muito maior do que antes, abriram os portões de ferro e tornaram a fechá-los assim que os dragões entraram no pátio murado.



— Olá, Settry! — chamou Tyrer, descendo os degraus da varanda para recebê-lo. — Por Deus, é uma visão e tanto para olhos doloridos. De onde você veio?



— De Iocoama, meu caro. De onde mais poderia ser? Viemos de barco.



Quando Pallidar desmontou, um dos jardineiros, de enxada na mão, adiantou-se apressado, meio encurvado, para segurar as rédeas. Ao vê-lo, Pallidar levou a mão ao coldre.



— Afaste-se!





— Não se preocupe, Settry. É Ukiya, um dos nossos jardineiros regulares, sempre muito prestativo. Domo, Ukiya.





Hai, Taira-sama, domo.



Hiraga exibiu um sorriso vazio, o rosto meio oculto pelo chapéu de cule que usava, inclinou-se e não mais se mexeu.



— Afaste-se! — repetiu Pallidar. — Desculpe, Phillip, mas não gosto de ver nenhum desses patifes perto de mim, ainda mais com uma enxada na mão. Grimes!



No mesmo instante, o dragão chamado se aproximou, empurrou Hiraga rudemente e pegou as rédeas.



— Caia fora, japa! Suma daqui!



Obediente, Hiraga balançou a cabeça, manteve o sorriso vazio e se afastou. Mas permaneceu a distância de escutar, reprimindo o desejo de vingar o insulto com a enxada afiada, o estilete escondido no chapéu, ou com as próprias mãos duras como ferro.



— Mas por que vieram de barco? — indagou Tyrer.





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