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— O que ela está fazendo, a não ser reagir ao amor de um rapaz? — Ele empurrou o papel de volta. — Não gosto desses métodos, André. São repulsivos. Você encorajou a moça com um emaranhado de meias verdades, ao lhe dizer para mostrar apenas a metade da carta.





— Maquiavel escreveu: “É necessário para o Estado operar com mentiras e meias verdades, porque as pessoas são constituídas de mentiras e meias verdades. Até os príncipes.” E, com certeza, por pricípio todos os embaixadores e políticos. — André deu de ombros e dobrou a carta com cuidado. — Talvez não precisemos usar isto, mas é bom ter, porque representamos o Estado.



— E como usaríamos?



— O fato de que ela rasgou e...



— Mas não foi ela! — protestou Seratard, chocado.



— Claro que não — disse André, friamente.— Mas seria sua palavra contra a minha. Quem ganharia a disputa? O fato de que ela rasgou a segunda página, e só mostrou a primeira a Struan, seria o suficiente para condená-la aos olhos dele. Isso lhe daria um pretexto perfeito para anular qualquer promessa de casamento, já que foi enganado. A mãe de Struan? Se tivesse conhecimento dela, faria todos os tipos de concessões para se apoderar desta página, caso o filho insista em casar contra o seu conselho.



— Não gosto de chantagem.



André corou.



— Não gosto de muitos métodos que sou obrigado a usar para os nossos, e ressalto os nossos... propósitos. — Ele guardou a carta no bolso. — Mostrado á sociedade ou publicado, com os detalhes, este documento destruiria Angelique. Talvez apenas mostre a verdade: que ela não passa de uma aventureira, em conspiração com o pai, que é a menor das hipóteses um jogador, e em breve estará na bancarrota, como o tio. Ouanto a encorajá-lo, limito-me a dizer o que ela quer saber e ouvir. Para ajudá-la. O problema é dela, não meu... ou nosso.



Seratard suspirou.



— É muito triste que ela esteja em tamanha embrulhada.





— Tem razão, mas isso resulta em nosso proveito, não é mesmo? — Os lábios de André sorriam, mas não os olhos. — E no seu pessoalmente, não é mesmo, monsieur? Usada de maneira judiciosa, esta carta garantiria a presença de Angelique em sua cama, se o seu charme indubitável falhasse, o que duvido.



Seratard não sorriu.



— E você, André? O que pretende fazer com Hana, a Flor? André levantou os olhos abruptamente.



— A Flor morreu.



— Sei disso... e em circunstâncias muito estranhas.



— Não houve nada de estranho — disse André, os olhos frios como os de um réptil. — Ela cometeu suicídio.





— Foi encontrada com a garganta cortada... por sua faca. A mama-san diz que você passou a noite com ela, como sempre.



André tentava entender por que Seratard fazia aquela sondagem agora.



— É verdade, mas isso não é da sua conta.





— Receio que seja. O representante local do Bakufu apresentou um pedido formal de informações ontem.



— Diga a ele para se matar também. Hana, a Flor, era especial, sem dúvida, e era minha. Paguei o mais alto preço por ela, mas ainda assim continuava a fazer parte do mundo dos salgueiros.



— Como você disse, com toda razão, as pessoas são constituídas por mentiras e meias verdades. A queixa enuncia que você teve uma violenta briga com ela. Porque ela tomara um amante.



— Tivemos uma briga, é verdade, e admito que senti vontade de matá-la, mas não por esse motivo — murmurou André, meio engasgado. — A verdade... a verdade é que ela tinha alguns clientes. Três... na outra casa, mas isso foi antes de ela se tornar minha propriedade. Um deles... um deles a deixou com sífilis, que ela passou para mim.



Seratard ficou consternado.





Mon Dieu, sífilis?



— Isso mesmo.





Mon Dieu, tem certeza?



— Tenho.



André levantou-se, foi até o aparador, serviu-se de um conhaque, bebeu.



— Babcott confirmou há um mês. Sem qualquer possibilidade de equívoco. Só pode ter sido ela. Quando a interroguei a respeito, ela...



Ele a viu de novo, na casinha dentro dos muros da casa das Três Carpas no pequeno franzido no rosto oval perfeito. Ela tinha apenas dezessete anos e pouco mais de um metro e meio de altura.





Hai, gomen nasai, Furansu-san, mancha, como a sua, mas ano passado minha sukoshi, pequena, hai, pequena, Furansu-san, sukoshi, não ruim, sumiu — dissera ela, gentilmente, com seu sorriso meigo, na habitual mistura de japonês e fragmentos de inglês. — Hana dizer mama-san. Mama-san dizer ver médico, ele dizer não ruim. Não ruim porque eu só começava, ainda pequena. Doutor diz orar santuário e tomar remédio horrível. Mas tudo sumiu poucas semanas.



Uma pausa, e ela acrescentara, feliz:



— Tudo sumiu um ano atrás.



— Não sumiu coisa nenhuma!



— Por que raiva? Não preocupe. Oro no santuário xintoísta como doutor diz, dou dinheiro sacerdote, como... — Seu rosto se contraíra numa risada. —... como remédio gosto horrível. Poucas semanas tudo sumiu.



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